China exerce poder com a diplomacia do boicote

China exerce poder com a diplomacia do boicote

A ilha sul-coreana de Jeju antes vivia cheia de turistas chineses, atraídos por suas praias e paisagem montanhosa. Mas um setor econômico criado para atender a consumidores chineses secou praticamente da noite para o dia, em março, quando Pequim proibiu agências de viagens de enviar grupos de turistas à Coreia do Sul, como retaliação contra a decisão de Seul de usar um sistema americano de defesa antimísseis para proteger-se contra a imprevisível Coreia do Norte.

O número de turistas chineses diários caiu de 7.500, alguns dias antes da proibição, para mil, segundo cifras oficiais. A situação é semelhante em Seul, onde shoppings antes repletos de turistas chineses hoje estão vazios.

“Desde 15 de março, nem uma única pessoa chinesa entrou em nossa loja”, falou uma vendedora. Segundo outra, “a empresa nos obrigou a tirar férias sem vencimentos, só por causa da queda nos turistas chineses”.
A China vem implementando boicotes desse tipo contra seus adversários há mais de cem anos e sabe como fazê-los ser sentidos econômica e também politicamente.O impacto está sendo sentido não apenas pelos hotéis e o comércio varejista: a indústria automotiva sul-coreana também foi fortemente prejudicada. A Hyundai informou que suas vendas na China, o maior mercado automotivo do mundo, caíram 14% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2016, enquanto as da Kia caíram 36%, ao mesmo tempo em que o mercado total de carros na China subiu 4%.

O controle do acesso ao vasto mercado chinês confere ao presidente Xi Jinping e o Partido Comunista alavancagem tremenda sobre seus parceiros comerciais e lhes permite exibir suas credenciais nacionalistas ao público doméstico. Mas Pequim precisa agir com cuidado para garantir que seus embargos não prejudiquem a economia da própria China nem desencadeiem forças de nacionalismo acirrado e protesto que possam vir a ameaçar o domínio do partido único.

Montadoras de carros japonesas, produtores filipinos de bananas e trabalhadores do setor turístico do Taiwan, todos já foram alvos no passado de campanhas hostis instigadas em graus diversos por Pequim e a mídia controlada pelo Partido Comunista.

Diplomatas e executivos estrangeiros temem muito a acusação de terem “ferido os sentimentos do povo chinês”, o discurso comunista frequentemente empregado para dar início a um embargo. Esse medo se intensifica devido ao poder econômico crescente da China, ao tom estridentemente nacionalista adotado por Xi e ao fato de que os consumidores são facilmente mobilizados em redes sociais como Weibo e WeChat.

Os resultados podem ser devastadores, com carros depredados, fábricas atacadas e anos de esforços para penetrar em um dos maiores mercados do mundo desfeitos da noite para o dia. “Há muito pouco que empresas estrangeiras possam fazer para proteger-se contra esse tipo de ação politizada, exceto fazer lobby doméstico pela manutenção de relações fortes com a China”, diz Duncan Innes-Ker, analista da China na Economist Intelligence Unit.

A história dos boicotes chineses é anterior à própria palavra “boicote”, que nasceu na Irlanda na década de 1880, e envolve patriotismo, anticolonialismo, rivalidades econômicas e ocasionais explosões de violência.

Em 1905, após um boicote “especialmente prejudicial” do algodão americano, o presidente americano Theodore Roosevelt pediu a reforma de uma lei discriminatória que limitava a imigração chinesa. “É sinal de enorme miopia de nossa parte permitir que concorrentes estrangeiros impeçam nosso acesso ao grande mercado da China”, ele avisou.

O papel da China na economia mundial, como produtora de bens e como mercado final, é muitíssimo maior hoje do que era na época de Roosevelt. E o domínio de Pequim sobre a economia, exercido por meio de empresas estatais e de sua alavancagem sobre empresas do setor privado, é poderoso. Assim, para muitos países e muitas empresas, o aviso lançado por Roosevelt sobre o risco de incorrer no desagrado da China é mais relevante que nunca.

Mas a integração econômica da China também atua como fator de restrição. A Coreia do Sul é a maior fornecedora chinesa de produtos importados e o quarto maior mercado de exportação da China. Como o Japão, que já sofreu os efeitos dos embargos de Pequim em várias ocasiões, a Coreia do Sul fornece muitos componentes e máquinas de alta tecnologia que movem a indústria manufatureira da China.

“Essa retaliação econômica vai prejudicar os interesses econômicos também de Pequim, na medida em que a China importa bens intermediários sul-coreanos para fazer o acabamento manufatureiro e então vendê-los a outros mercados”, avisou Kim Tae-hwan, da Federação Sul-Coreana de Pequenas e Médias Empresas. “As empresas sul-coreanas também empregam muitos trabalhadores chineses.”

ATRITOS

O Japão irritou a China nos últimos anos por entrar em uma disputa com Pequim em torno de algumas ilhas no mar da China Oriental, mas a Coreia do Sul parecia ter conseguido um equilíbrio delicado, aprofundando seus investimentos na China ao mesmo tempo em que abrigava um grande contingente militar dos EUA. Mas tudo isso mudou no ano passado, com a decisão de instalar a plataforma do Terminal High Altitude Area Defence (Thaad), um sistema americano de defesa antimísseis, com a finalidade de abater mísseis norte-coreanos.

A iniciativa enfureceu Pequim, que teme que ela possa fortalecer a arquitetura americana de segurança na região e levar a uma vigilância maior de suas próprias atividades. Forças americanas anunciaram na terça-feira (2) que o Thaad entrou em operação.

A resposta chinesa ao Thaad evoluiu aos poucos. Inicialmente Pequim mirou contra empresas sul-coreanas específicas, citando questões de saúde e segurança. Mas sua posição se endureceu quando ficou claro que Seul pretendia levar adiante a instalação do Thaad.

Mercadorias começaram a ser obstruídas nas alfândegas. Funcionários de empresas coreanas passaram a encarar obstáculos diversos. O grupo varejista sul-coreano Lotte foi especialmente atingido, tendo 87 de suas 99 lojas na China fechadas porque tinha entregado um campo de golfe a Seul para ajudar na instalação do Thaad.

A retaliação só se tornou declarada quando os EUA começaram a instalar as primeiras partes da bateria de mísseis, em março. Então o chanceler chinês, Wang Yi, avisou que os sul-coreanos “vão acabar se prejudicando”.

A Coreia do Sul prestou queixa junto à Organização Mundial de Comércio, dizendo que a China “pode ter violado alguns acordos comerciais”. Mas Seul vive um dilema, dividido entre sua aliança militar e ideológica com os EUA e seus laços comerciais e econômicos com a China, sua maior parceira comercial. A situação se complicou com a deposição da presidente Park Geun-hye, em março.

Moon Jae-in, o novo presidente sul-coreano, é mais favorável à China e há muito tempo manifesta reservas em relação à bateria antimísseis. Em um debate, ele pediu a Pequim que suspenda o boicote imediatamente, mas acrescentou que Seul precisa “fazer esforços diplomáticos para persuadir a China”.

A campanha contra a Coreia do Sul foi movida por Pequim com a ajuda da mídia estatal, que lançou uma enxurrada de reportagens condenando o sistema antimísseis e sugerindo que ele faria parte de um complô dos EUA para conter a ascensão da China.

Porém, como aconteceu com boicotes anteriores, as autoridades locais receiam que os protestos possam sair de seu controle. Em março, quando manifestantes diante de uma loja da Lotte em Hunan, província do sul da China, depredaram um carro sul-coreano, a polícia local disse aos moradores que o vandalismo é ilegal e pediu um “patriotismo racional”.

“As tensões entre o nacionalismo de Estado e o nacionalismo popular vêm de pelo menos cem anos”, diz Robert Bickers, autor de um livro sobre o nacionalismo chinês, “Out of China”. “Às vezes o governo quer agitar a população, às vezes quer mantê-la sob controle. Outras vezes ele é pego completamente de surpresa.”

Kaiser Kuo, comentarista cultural sino-americano e ex-executivo do grupo de tecnologia Baidu, sugeriu que os líderes chineses estão posicionados sobre “um poço de nacionalismo em chamas, segurando um ventilador em uma mão e uma mangueira na outra”.

“Eles podem acirrar as chamas [com o ventilador], para intimidar ou para poder apontar para elas durante uma negociação, fazendo com que suas escolhas aparentem ser limitadas por uma base popular doméstica mobilizada”, ele escreveu em ensaio recente. “Com a mangueira, porém, podem impedir que o fogo saia do poço e incendeie toda a valiosa paisagem em volta.”

EFICÁCIA

A eficácia dos boicotes é debatida há muito tempo por economistas e investidores. Em seu “Study of Chinese Boycotts”, de 1933, CF Remer, professor de economia na Universidade do Michigan, argumentou que os boicotes exerciam impacto “psicológico” forte sobre a nação-alvo, mesmo que a China também sofresse efeitos econômicos adversos. “Um boicote feito por um país único é como uma greve trabalhista”, ele escreveu. “A ameaça de entrar em greve é poderosa; a greve, propriamente dita, provavelmente terá custo alto e será ineficiente.”

Pesquisas mais recentes apontam para um impacto inicial significativo, seguido por uma posterior recuperação do comércio, fato que sugere que os pedidos são adiados, e não cancelados definitivamente. Em alguns casos os embargos vão perdendo força paulatinamente à medida que os fatos vão avançando. Em outros, são necessárias negociações prolongadas para reparar os laços rompidos.

O pesquisador econômico Andreas Fuchs, da Universidade de Heidelberg, constatou que os países tendem a sofrer uma queda temporária em suas exportações à China se seus governos têm encontros com o Dalai Lama, líder budista tibetano visto por Pequim como separatista perigoso.

O boicote de produtos japoneses em 2012 seguiu padrão semelhante. Kilian Heilmann, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, descobriu que as exportações japonesas de carros para a China caíram 32%, em US$1,9 bilhão, nos 12 meses seguintes ao início do boicote, em setembro de 2012, lançado em relação à aquisição por Tóquio das ilhas disputadas conhecidas pela China como Diaoyu e pelo Japão como Senkaku. Mas o comércio voltou aos níveis normais no ano seguinte.

Recuperações como essas impõem uma pergunta: se os boicotes conseguem de fato levar governos de outros países a modificar suas políticas. Houve algumas vitórias grandes para a China nos últimos anos.

Depois de serem ignorados pelas autoridades chinesas quando o então primeiro-ministro britânico David Cameron recebeu o líder espiritual, em 2012, investidores britânicos pressionaram o governo britânico para não receber o Dalai Lama novamente. Pequim tinha cancelado vários encontros com ministros britânicos, e acordos de investimento foram suspensos até que ficou claro que o encontro com o Dalai Lama não se repetiria.

A Noruega teve que passar por anos de negociações e, no ano passado, assumir o compromisso de “dar grande importância aos interesses e preocupações principais da China”, para poder restabelecer laços comerciais com a China, depois de Pequim punir Oslo pela decisão tomada em 2010 por um grupo independente nomeado por políticos noruegueses de dar o Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo.

O governo chinês pode fazer uso eficaz de sanções econômicas para afetar as posições de política externa de governos democráticos, com efeitos potencialmente negativos para o progresso internacional em relação a direitos humanos”, argumentou o economista Ivar Kolstad em artigo para o “think tank” norueguês. Ele calculou que a disputa custou à Noruega entre US$780 milhões e US$1,3 bilhão em exportações e concluiu que a China ficou “grande demais para que se possa criticá-la”.

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, manifestou opinião semelhante, invertendo a postura adversária de seu predecessor em relação às disputas no mar da China Oriental, na esperança de conseguir concessões econômicas de Pequim.

NARRATIVA CHINESA

Rory Medcalf, diretor do National Security College da Australian National University, exorta os países a resistir às tentativas de Pequim de impor sua própria narrativa sobre o poderio econômico chinês, apresentando análises mais nuançadas de sua influência real. “A China tem se saído muito bem ao explorar a sombra de seu crescimento”, ele diz. “Existe na Austrália o mito de que nossa economia é totalmente dependente da demanda chinesa por nossa exportações minerais.”

A China é o maior mercado dos produtos australianos, responsável por 27,5% das exportações desse país, boa parte das quais compostas de minério de ferro e carvão. Mas para a Austrália, diferentemente de outras economias desenvolvidas, incluindo a Coreia do Sul e Cingapura, o comércio não é tão crucial, de modo que essas exportações representam apenas um pouco mais de 5% de seu produto nacional bruto.

O Japão, o alvo mais frequente dos boicotes chineses, está se adaptando para contrabalançar potenciais prejuízos. “Após os protestos de 2012, muitas companhias japonesas perceberam que nossa posição na China vai continuar precária. Isso acelerou nosso esforço de nos voltarmos a outros mercados mais cordiais, como o sudeste asiático”, diz um executivo de uma empresa manufatureira japonesa na Indonésia.

Diferentes países têm diferentes graus de exposição à pressão econômica chinesa, mas o professor Bickers diz que o risco para todos vai continuar a aumentar, acompanhando a projeção crescente do poderio político e militar de Pequim e o medo do Partido Comunista de perder o poder.

“Estamos ingressando em uma fase nova, com uma China assertiva no mar da China Oriental”, diz Bickers. “Quando a postura de Xi em relação ao rejuvenescimento da China vem acompanhado da insegurança da China, eu me preocupo muito.”

(Why?)
Published at Wed, 10 May 2017 18:11:00 +0000

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