Hamas modera discurso devido a questões econômicas e isolamento

Hamas modera discurso devido a questões econômicas e isolamento

Depois que o Hamas divulgou seu documento de políticas sugerindo que o grupo radical palestino estaria disposto a mudar sua posição linha-dura sobre o processo de paz no Oriente Médio, Israel rapidamente o descartou como uma “cortina de fumaça”.

No documento há muito aguardado e que foi divulgado na segunda-feira (1º), o Hamas, que tradicionalmente se recusou a aprovar uma solução de dois Estados, disse que aceitaria um Estado palestino provisório, mantendo as fronteiras de 1967.

Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, cujo governo de direita enfrentou o Hamas em uma guerra em Gaza em 2014, foi duramente crítico. “Vemos que o Hamas continua investindo todos os seus recursos não apenas em preparar-se para a guerra com Israel, como também para educar as crianças de Gaza a quererem destruir Israel”, disse seu gabinete em um comunicado.O documento, escrito na linguagem tipicamente incendiária do movimento, disse que seu objetivo é “libertar a Palestina e confrontar o projeto sionista”, mas também foi notável por evitar apelos explícitos à destruição de Israel —uma antiga convocação do grupo militante. Ele também abrandou o tom da retórica explicitamente antissemita de sua carta fundacional de 1988.

Para o Hamas, entretanto, será a reação dos EUA e das potências árabes que terá mais importância, segundo analistas.

O documento, que levou dois anos para ser concluído, foi divulgado dois dias antes de um encontro que Mahmoud Abbas, o presidente palestino e líder da Fatah, rival do Hamas, deverá ter com Donald Trump em Washington.

O presidente americano prometeu fazer pressão por um acordo de paz israelense-palestino com o apoio dos países árabes, incluindo o Egito, que tem relações tensas com o Hamas.

Ele também prometeu “erradicar o terrorismo islâmico” —o Hamas é designado como grupo terrorista por Israel, pelos EUA e pela UE.

“O Hamas, assim como Abbas e Netanyahu, não tem ideia do que esperar de Trump”, disse Nathan Thrall, um analista do Grupo Internacional de Crises. “Todos têm motivos para temê-lo; realmente não se sabe o que ele pedirá.”

A divulgação do documento de políticas também ocorre enquanto o Hamas enfrenta crescente pressão econômica do Egito, que controla o posto de fronteira de Rafah —a principal porta de Gaza para o mundo exterior— e a Autoridade Palestina de Abbas.

A AP está cortando o fornecimento de energia elétrica para a faixa empobrecida, com 2 milhões de habitantes, e os salários de 60 mil empregados em Gaza, no que os palestinos consideram um jogo de poder vergonhoso.

O território cercado está isolado desde que o Hamas surpreendentemente derrotou a Fatah nas eleições palestinas em 2006 e tomou o controle de Gaza.

SEM ALIADOS

A economia da faixa foi gravemente comprimida desde 2013, quando Mohammed Mursi, o ex-presidente islâmico do Egito e um aliado do Hamas, foi derrubado por um golpe de Estado.

Seu sucessor, Abdel Fattah al-Sisi, o ex-líder militar que tem relações calorosas com Trump, restringiu as viagens por Rafah e arrasou os túneis de contrabando na região do Sinai, no Egito, que mantinham Gaza abastecida de produtos.

A guerra de seis anos na Síria, que dava um importante apoio ao Hamas, também enfraqueceu os laços regionais do grupo, aumentando seu isolamento.

Mkhaimar Abusada, professor de ciência política na Universidade Al-Azhar de Gaza, disse que o novo documento de políticas reflete a “maturidade por parte do Hamas com relação aos judeus, com relação à impossibilidade de libertar toda a Palestina”.

“Eles estão em isolamento político nos últimos quatro anos, em consequência de perder a Síria, o Irã e Mohammed Mursi como apoiadores”, disse ele.

Mas analistas creem que o novo tom ficou muito aquém do que seria necessário para pôr fim ao isolamento diplomático do Hamas, com cujos representantes as autoridades dos EUA e da UE são proibidas de se encontrar.

O Hamas também deixou claro que não reconhecerá Israel, renunciará à violência ou respeitará acordos diplomáticos anteriores, como os de Oslo. Esses são os três princípios estabelecidos por mediadores com o Quarteto internacional do Oriente Médio depois das eleições de 2006.

O documento político do grupo também não cedeu na reivindicação territorial a toda a Palestina histórica —definida no documento como indo do rio Jordão até o Mediterrâneo– e disse que sua “resistência… continuará até que a libertação seja alcançada”.

Embora tenham evitado fazer ameaças explícitas de destruir Israel, os israelenses consideram equivalentes a isso o pedido de direito de retorno a todos os refugiados palestinos e a reivindicação a todo o seu território histórico.

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